7/12/2011

Mundo individualista, homem individual

Por que este é um momento crucial na história da moda masculina. Crítica de moda Cathy Horyn explica em entrevista exclusiva

Por Hermano Silva

 

 

No início dos anos 2000, houve a popularização do “metrossexual” – uma expressão criada pela mídia anos antes para definir a estética e os hábitos que surgiam então na moda masculina. O metrossexual se referia ao homem que estava assumindo a sua vaidade e o seu lado feminino – ao menos para o espelho. Suas novas preocupações incluíam depilação, bronzeamento artificial e malhar para ter um corpo definido.

Vimos, no início da década de 2010, uma nova direção: meninos do mundo todo interessados em uma imagem mais masculina – escolha manifestada de forma muito clara nas preferências atuais por barbas e bigodes. Talvez uma reação à imagem de David Beckham, que ficou fixada em nossas mentes, ou porque em tempos de incertezas sociais ou culturais as definições de gêneros ou diferenças sexuais tendem a ser reforçadas. Basta pensar sobre os efeitos das crises econômicas, em como a estrutura de trabalho está mudando, em como as pessoas são mais móveis e em como trabalhar de casa passou a ser algo considerado totalmente normal.

Acima de tudo, esta é a década em que o individualismo parece ser finalmente celebrado pelos homens no que diz respeito a maneira como eles se vestem. Alguns podem dizer que este individualismo é baseado em arquétipos de masculinidade, como soldados, lenhadores e trabalhadores. Talvez seja verdade. Alguém disse “Village People” aí do outro lado? Sim, a moda tem os seus riscos. Mas acredito que só agora é que os homens realmente parecem ter a auto-confiança para assumir riscos e experimentar sem ter qualquer vergonha.

Se observarmos cuidadosamente as coleções de primavera-verão 2012 apresentadas em Milão e Paris em junho deste ano, elas vão confirmar que o homem ideal está em um caminho diferente do que antes. É sobre experimentar idéias que ele não se atreveu a experimentar por um longo tempo, como por exemplo usar mais cores, estar mais focado em itens colecionáveis e ser mais consciente do que nunca do que é Moda e para o que ela serve. (Diversão talvez?)

Para Cathy Horyn, crítica de moda do “New York Times”, “o homem atual ideal é um homem individual”. Em entrevista exclusiva para o site The Gentleman, ela dá sua opinião: “Acho que os melhores designers tendem a reconhecer que o homem tem uma visão muito ampla da moda hoje em dia. Houve um consumidor de moda voraz nos anos 80 e início dos anos 90, que era muito provavelmente gay e que tinha um interesse muito grande em ser expressivo através de suas roupas. Haviam também estilistas como Versace, Dolce & Gabbana, Thierry Mugler e Jean Paul Gaultier para preencher essa demanda …”, observa.

“Entretanto acho que agora muitos homens homossexuais, heterossexuais – não importa – possuem um conhecimento muito bom sobre moda, de quem está criando. Eles querem estar confortáveis, eles vivem em uma área urbana, eles precisam estar arrumados para o trabalho, mas eles também podem usar jeans e camiseta na maior parte do tempo ou até mesmo shorts. Eles querem uma bolsa de qualidade, eles querem uma boa pasta, bons sapatos”, conclui Horyn.

É verdade que os consumidores do sexo masculino estão mais puristas e mais conscientes no que diz respeito a suas escolhas de compra. É visível que alguns dos melhores designers de moda masculina atuais (como Lucas Ossendrijver para Lanvin, Junya Watanabe e Paul Smith), estão apresentando roupas na passarela que não se parecem com roupas de designer. As roupas agora são simplesmente bons itens que podem ser usados de modo independente: são bem construídos, precisos, definitivos. Talvez moda – no mais puro sentido da palavra – não seja mais tão interessante assim, abrindo mais espaço para o estilo. Porque os estilistas sabem que os seus clientes estão mais auto-confiantes e que eles vão escolher o que lhes cai melhor. (Para aqueles que realmente amam algo mais chamativo, não se preocupem, esta temporada Prada está aí para divertir).

A partir de agora parece que o homem será capaz de continuar re-inventando e romantizando sobre quem ele quer ser. Os tecidos, cores e acessórios vão expressar cuidadosamente este individualismo – talvez longe das restrições do terno enquanto uniforme. Mesmo que o terno seja uma escolha, será com certeza um terno muito bem escolhido.

 

 


Créditos das imagens: Looks da Lanvin, Junya Watanabe, Paul Smith, Dries Van Noten e Prada (Monica Feudi / Style.com, Yannis Vlamos / GoRunway.com), Cathy Horyn (foto via Twitter) e still de “Altered States”, do diretor Ken Russell.

 

 

Clique aqui para ler a cobertura da temporada masculina parisiense para a Primavera/Verão 2012

  • http://www.shhh.fm jackson araujo

    Autoconfiança é tudo. Faz com que vc se permita a delírios indulgentes, como massagens, cremes, vaidades clássicas masculinas agora associadas às modas e aos modos do homem. Thanx 4 sharing.

  • Gustavo Garcez

    Razzo no texto Herman!! Saudade individual,da escolha purista e conciente desse bom item de amizade que é vc <3