2/02/2012

O renascimento do “feito à mão”

Por que itens feitos manualmente estão sendo valorizados novamente

 

Detalhe de capa de chuva da empresa sueca Stutterheim apresentada no evento Seek em Berlim. Cada peça é assinada e numerada pela costureira.

 

 

É fato que as marcas que produzem “fast fashion” assumiram o controle da indústria da moda. Temos visto certas empresas produzirem e venderem  versões acessíveis do que marcas de luxo propõem nas passarelas dentro de períodos de tempo curtíssimos. A maioria dos itens são produzidos de maneira barata na China, Taiwan e Índia e, muitas vezes são consumidos tão rapidamente como hambúrgueres.

Moda, que sempre refletiu a promessa e a incerteza do futuro, tem acelerado a tentação dos consumidores, oferecendo-lhes novas identidades que alteram na velocidade da luz. A situação atual talvez expresse as moralidades fragmentadas da diversidade cultural e da incerteza social contemporânea, como apontou a autora Rebecca Arnold em seu livro: “Fashion, Desire and Anxiety: Image and Morality in the Twentieth Century” (Moda, Desejo e Ansiedade: Imagem e Moralidade no Século XX), de 2001.

Por outro lado, todo um grupo de pessoas está reagindo contra o consumo rápido e questionando a sustentabilidade ecológica desta roda*. Alguns consumidores estão começando a dar mais importância ao Upcycling – termo que define a reciclagem, remixagem e melhoria de roupas usadas. Alguns outros estão reagindo com um clássico: o craftsmanship. Produtos autênticos feitos à mão estão vivendo um renascimento, especialmente entre homens jovens.

Não muitos anos ou mesmo temporadas atrás a obra de alfaiates talentosos, sapateiros e chapeleiros parecia ser menos apreciada porque o trabalho manual que desenvolvem exige um tempo diferente e não tem um valor tão competitivo quanto o das marcas de produção em massa. “Frequentemente o trabalho de um artesão é visto como trabalho manual, esquecendo-se sobre o seu real significado: a capacidade de inventar, criar um objeto”, explicou a editora da revista “Vogue Italia”, Franca Sozzani, em um artigo sobre o termo “artesão” de 2010. Ela apontou que em um mundo virtual onde tudo é igual, o artesão é uma figura única, diferente e exclusiva; ele é “alguém que cria algo que ninguém tem”.

(Texto continua abaixo)

 

O técnico em impressão Lars em ação na oficina Martin Schröder Drucker dentro da feira Bread & Butter em Berlim.

 

Lars prepara placa de metal antes de imprimir um cartão de visitas.

 

Vários artesãos mostraram como executam o seu trabalho. O espaço também promoveu uma nova publicação alemã totalmente dedicada a itens autênticos, The Heritage Post.

 

 

O proprietário da marca sueca Stutterheim, Alexander Stutterheim, parte do mesmo ponto de vista que Sozzani. Sua empresa de pequena escala fica na Suécia e é especializada em capas de chuva. Durante a última semana de moda de Berlim ele trouxe sua marca para a cidade para mostrar suas peças no showroom Seek depois de ter sido descoberta pelo organizador do evento, Oliver Saunders. A empresa de Stutterheim tem apenas quatro costureiras: Lena, Birgitta, Evy e Ingrid. Cada peça produzida é numerada e assinada à mão por elas.

“Percebemos que o nosso cliente está preocupado sobre como roupas são produzidas hoje em dia. Uma vez que eles sabem que existe uma pessoa por trás deste produto, torna-se um objeto muito mais humano e interessante para eles”, explica Alexander. “A reação tem sido muito positiva até agora: em um dia chuvoso em Estocolmo as pessoas podem abordar umas às outras para falar sobre o casaco que estão vestindo e acabam verificando o número ou quem os produziu”.

Embora o apelo do craftsmanship sempre tenha existido, foi por muito tempo esquecido. Mesmo marcas de luxo tiveram de voltar para os seus arquivos para salvar suas histórias do esquecimento. Agora todos eles estão tentando contar sobre esta tradição de um modo novo (na verdade, qualquer marca que tem peças feitas à mão em seu DNA). Do ponto de vista do marketing, não havia muito o que eles pudessem fazer para competir com Zara e H&M.

Mas por que o papel de artesãos individuais e as suas potencialidades estão sendo solicitados novamente?

Tudo diz respeito a valorização de produtos que uma geração mais jovem está agora cada vez mais consciente a respeito. Roupas e acessórios feitos manualmente definem um padrão diferente em qualidade e têm uma história que vale a pena ser contada. Também tem a ver com algo que discutimos aqui anteriormente no artigo “Mundo individualista, homem individual”, que, no contexto de muitas crises financeiras – especialmente na Europa e EUA – o consumidor do sexo masculino tornou-se mais purista e mais consciente sobre suas escolhas. Mas, acima de tudo, quando alguém escolhe um item manualmente bem executado, ele também está escolhendo algo de qualidade notável e que muito provavelmente vai durar mais tempo. Em outras palavras: um bom e sólido investimento.

 

Texto e fotos: Hermano Silva © Berlin 2012

 

*= Um bom exemplo sobre a necessidade de estar consciente sobre o que você veste vem de uma iniciativa do estilista belga Bruno Pieters. Ele desenvolveu uma nova linha chamada Honest por Bruno Pieters que está disponível para compra on-line. Até aí nada de novo se não fosse pelo fato de que o visitante da loja on-line poderá encontrar informações muito detalhadas sobre cada peça, tais como de onde o zíper e os botões vêm, quanto a matéria prima custou e quanto tempo cada etapa da produção levou. É sobre a transparência de como o negócio é gerido. É com certeza uma idéia inovadora que irá ajudar a moldar a forma como vemos a moda (e a ética) no futuro.

 

Leia aqui sobre nossa visita a um dos alfaites da Saville Row em Londres

Deixe seu comentário