9/03/2012

Uma visita ao ateliê de Alex Flemming em Berlim

 

A primeira vez que tive contato com a obra do artista plástico brasileiro Alex Flemming, 58, foi assim como muitos outros milhões de paulistanos, ao visitar a estação de metrô Sumaré em São Paulo. Flemming desenvolveu uma obra pública especialmente para o local em 1998. A obra é um conjunto de pinturas sobre placas de vidro que também servem de janelas para a estação. Cada mural/vitral traz um retrato de uma pessoa anônima no qual estão sobrepostos trechos de livros de autores brasileiros. Fiquei completamente encantado com aquela explosão de cores, letras e poesia.

Na verdade é desde os anos 1970 que Flemming vem encantando o Brasil e o mundo. Seu trabalho é marcado pela representação do corpo humano, pelo uso da escrita e pela presença de temas auto-biográficos. Tudo isso expressado em forma de pintura, gravura, instalação ou até mesmo vídeos.

Nos anos 1980 ele decidiu morar em Berlim, no lado Oriental, mas não se adaptou ao regime socialista da República Democrática Alemã.  Foi somente em 1991, após a queda do Muro de Berlim, que ele retornou a cidade e desde então ele vive entre o Brasil e a Alemanha.

O ano de 2012 também terá um gosto especial para Flemming. Ele está saindo de um período de semi-reclusão que durou três anos, período no qual se dedicou a uma nova série de pinturas. Agora ele começa a mostrar os resultados em exposições pela Europa, sendo a primeira na Brasilea Foundation em Basel, Suíça, no fim de março. Isso sem falar em um novo livro sobre o seu trabalho fotográfico a ser lançado ainda este semestre no Brasil.

Recentemente tive a oportunidade de visitar o ateliê de Flemming no bairro de Prenzlauer Berg em Berlim e, entre um café e outro, ele revelou em primeira mão ao site The Gentleman a sua nova série de telas, intitulada de “Série Caos”. A primeira parte da nossa conversa está publicada abaixo, mas um artigo com a entrevista completa estará disponível em Maio numa surpresa para celebrar três anos de aniversário do The Gentleman. Aguarde!

 

Berlim: como você veio parar aqui?

Eu já havia morado aqui nos anos 1980. Voltei para o Brasil e depois vim para Berlim novamente em 1991. Berlim eu conheço pela boca da minha avó: ela tinha descendência alemã. O que sempre me fascinou na cidade foi a sua esquizofrenia. A primeira vez que eu vim aqui ela era dividida pelo Muro, então tudo aqui era dividido e ao mesmo tempo duplicado. Já que tinha um zoológico no Ocidente, o Oriente fez um zoológico também. Já que as duas óperas eram no Oriente, o Ocidente teve que fazer uma ópera também. Era assim com tudo. Isso é uma esquizofrenia muito profunda e também muito alemã, num sentido histórico e ideológico que eu gosto muito. Aqui ideologia é levada a sério. Não é como no Brasil onde você fala uma coisa e logo em seguida se esqueçe. O Brasil é um sempiterno Carnaval. Hoje em dia se vê menos dessa esquizofrenia em Berlim, mas é uma cidade marcada pelas cicatrizes.

De que maneira a arte produzida em Berlim reflete essa ideologia alemã?

Não há a menor dúvida sobre essa conexão. Quando se fala em arte aqui ninguém está brincando. Infelizmente no Brasil eu sinto que as pessoas estão brincando: tanto artistas (ou pseudo-artistas) quanto o mercado e o pseudo-mercado. Existe muito marketing e pouco conteúdo no Brasil. Na Alemanha isso não existe.

E São Paulo? O que é esta cidade para você?

Eu não diria que é esquizofrênica mas São Paulo é o caos – sem fazer trocadilho com a minha série de pinturas. São Paulo é a cidade que eu amo por excelência; é a cidade onde eu nasci. São Paulo é o futuro; é a entropia do mundo já atualmente. São Paulo é o que a Europa será no século 22: uma modernidade total junto com uma miséria muito grande. Os resultados são conflitos, ângulos retos e tesouras – que obviamente não são coisas boas: tesouras são cortantes e ângulos retos são pontudos… Isso é São Paulo e isso será a Europa no século 22.

 

“O Oftalmologista”, uma das pinturas da “Série Caos”

 

Fale um pouco sobre a sua última série, as pinturas. Quantas você já fez?

Até agora são mais de 40 pinturas que  fiz nos últimos três anos. Eu as chamo de “Pinturas Negras”, ou “Série Caos”, e são só retratos de pessoas que eu conheci. Por exemplo, os policiais da Polícia Militar de São Paulo; o sushiman que é na verdade o rapaz que trabalha no lugar que eu almoço quase todos os dias; ou ainda o garçom, que conheço do lugar onde eu tomava o meu conhaque quase todas as noites. O pedreiro: o retrato do cara que fez a reforma do meu apartamento aqui em Berlim. A colecionadora de arte: uma amiga minha, e assim por diante. Ainda estou trabalhando nesta série e estou muito contente com o resultado.

Por que você deu este nome para a série de pinturas: “Série Caos”?

“Pinturas Negras” havia sido o primeiro nome que eu tinha dado porque eu acho que as pessoas vivem a sua dignidade apesar do caos circundante. Como as pessoas são representadas transparentes, sem pele, isso significa que a série é também sobre a morte. Todos nós vamos morrer e todos nós vamos fazer parte do caos.

Quantas você já vendeu?

Não mostrei ainda em lugar algum, mas já vendi 8 telas.

Do ponto de vista estético, dá para definir a brasilidade?

O Brasil é quase um continente per se, um país que fala uma língua própria, tem a própria história e tem uma outra identidade em comparação aos outros países da América Latina.  Como essa identidade se reflete plasticamente? Eu não poderia dizer. Mas posso dizer em como ela não se reflete. Eu por exemplo não me identifico com bananas. O Brasil é rico demais para ter algo redutor que o defina.

O que é brasileiro na sua arte então?

Para mim é muito claro: são as cores; as cores metálicas, vibrantes, berrantes… O contrário do ton sur ton. São os contrastes: isso é o Brasil para mim. As pessoas entram aqui e me dizem: “Flemming realmente você não é um pintor alemão”. É muito claro, não há menor dúvida!

 

 

Para saber mais sobre o trabalho de Flemming: www.alexflemming.com

Entrevista e retratos: Hermano Silva © Berlim 2012 / Pinturas: cortesia © Alex Flemming

 

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  • paulo

    Eu gosto bastante das obras dele, fiquei super curioso para ver a Série Caos…

  • P.Vicelli

    Flemming é um dos mais importantes e interessantes artistas brasileiros. Cada exposição sua é uma surpresa e merece ser vista!